Arte-vida, arte-vômito: deglutição do real como totalidade. (Mário Jorge)

Sunday, February 21, 2010

O motorista e o milionário: uma reedição do revisionismo freudiano.

A história da psicanálise se assemelha a um queijo suíço, tamanha são as bifurcações e os caminhos variados que ela tomou durante todo o século XX e vem tomando em nosso século. Com tamanha pluralidade de autores, pensamentos, aplicações etc., é de se esperar que várias lutas tenham sido travadas contra essa ou aquela leitura do texto freudiano. Foi o que aconteceu, por exemplo, com os autores da Escola de Frankfurt[1], Adorno, Horkheimer e Marcuse, que criticaram duramente aquilo que chamaram de “revisionismo freudiano”. Através da crítica de Russell Jacoby (1977), uma tentativa de atualização dessa crítica frankfurtiana a expoentes contemporâneos, percebe-se que os argumentos ainda hoje se sustentam, sobretudo diante de uma obra aparentemente fora do campo psicológico como é o caso do Motorista e o milionário.

Defendendo a psicanálise como uma teoria radicalmente crítica, Marcuse (1978) defende que há uma conversão da psicanálise numa ideologia quando se lhe imputa o conceito de “personalidade”. Onde Freud via a repressão como característica fundante e fundamental da civilização, as escolas “neofreudianas” vêem uma saída possível, um triunfo sobre a repressão. Um dos argumentos de Marcuse é afirmar que numa sociedade repressiva como a nossa, defender a felicidade individual e o desenvolvimento produtivo como valores a serem realizados a partir de uma série de elementos que visam um condicionamento é reproduzir a mesma repressão. Em resumo, Marcuse chega a brincar, dizendo que, para os revisionistas ou neofreudianos, Freud tinha razão: a vida é má, repressiva, destrutiva; mas não assim tão má. Há também os aspectos construtivos.

A Escola de Frankfurt defendeu a posição de que a radicalidade da psicanálise está em não resolver a tensão dela própria, isto é, de ser uma psicoterapia de incidência individual ainda que reconheça que as bases do sofrimento estão em aspectos culturais e coletivos, como se pode atestar nos textos freudianos Moral sexual civilizada e doença mental nervosa e Mal-estar na civilização. Quando Freud não se propõe a construir uma síntese pacífica entre indivíduo e sociedade, mas uma tensão insolúvel, ele se distancia de qualquer posição ideológica, isto é, não defende nenhuma solução individual de felicidade possível nem uma possível transformação social profunda. Ao contrário dos neofreudianos que, ao advogarem a possibilidade do utensílio da teoria freudiana como promotora de uma vida de bem-estar em meio a uma civilização repressiva, recaem numa ideologia que defende o capitalismo. Naquilo que era insolúvel para Freud, a saber, o conflito indivíduo e sociedade, torna-se solúvel no indivíduo e sua relação com a própria personalidade. Criticando autores como Maslow, Horney, Sullivan, Allport, Adler, dentre outros, Jacoby defende que a psicologia neofreudiana é a ideologia do conformismo.

Para Jacoby, esses autores defendem que o paciente está doente não por acontecimentos passados mas porque ao lidar com eles ele estabelece metas inadequadas e falsos valores. Imputa-se, na psicanálise, valores morais específicos. Em O motorista e o milionário, tais valores ganham a feição do mundo do business atual, cujo tipo ideal é o empresário multimilionário e bem-sucedido. É ele, por sinal, um dos protagonistas do livro, Jonathan Patient.

Assim como nos neofreudianos a derrelição dizia respeito ao pensar radical acerca da antinomia indivíduo e sociedade, buscando a salvação para o sofrimento decretado por Freud na “personalidade”, em O motorista e o milionário tem-se uma abstração total das condições materiais e culturais de manutenção da condição paupérrima de existência a favor de uma saída individual e heróica. Segundo o frankfurtiano Theodor Adorno (apud Jacoby, 1977, p. 77), o homem é a ideologia da desumanização, ou seja, não se extingue a desumanização mas se a humaniza. A campanha de uma automanipulação ou uma auto-eficácia, no dizer de Albert Bandura (Monte, 2006), é o reflexo de uma época onde a manipulação das massas atinge um de seus mais altos graus.

Há uma série de princípios psicólogicos, misturados com o mais raso senso comum e a mais brutal defesa acrítica do capitalismo, que entram em jogo durante todo o enredo de O motorista e o milionário. A idéia de que a capacidade de adiar a gratificação leva a uma personalidade mais desenvolvida é o que se encontra na Teoria Social Cognitiva (Dollard e Miller) e na Teoria Psicodinâmica de Aprendizagem Social (Albert Bandura), as quais por sua vez são oriundas do movimento revisionista neofreudiano que se propõe a superar a antinomia freudiana por uma síntese pacífica entre indivíduo e sociedade capitalista.

O livro O motorista e o milionário é composto por, basicamente, duas partes: uma parábola e uma conclusão, ou, em bom português, uma fábula (uma historieta de ficção) e uma lição de moral (pseudo-insight esclarecedor). A fábula diz respeito a um milionário que passa aquilo que sabe ao seu motorista; o qual, após ter recebido os ensinamentos, põe em prática e muda radicalmente de vida. O que mais impressiona no livro não é o cinismo de querer fazer acreditar que uma ficção de tal porte (afinal de contas, quantos motoristas de carros luxuosos existem no mundo ou, para piorar, num país como o Brasil? Mais, ainda: destes motoristas, quantos poderiam dar um salto quântico em sua vida financeira?), mas o proposital velamento de certas questões sociais básicas. Por exemplo, o que impossibilita o sucesso da maioria da população diz respeito à macetes marketeiros ou a um funcionamento social, econômico e político?

A função de O motorista e o milionário não é pedagógica, mas ideológica. Ele quer construir uma subjetividade empreendedora num mundo onde o empreendorismo é para poucos. No máximo, leitores desse livro se tornarão funcionários obedientes, trabalhadores e, eis a novidade, sedentos por mais e mais trabalho, sucesso, reconhecimento. Em vez de o trabalho ser um meio para bem-estar, saúde, lazer, transporte; torna-se um fim em si mesmo. A mensagem do livro é de que é preciso ser, inclusive, empresário de si mesmo, enxergar os pensamentos como ações e o corpo como um gigante mercado financeiro.

O motorista e o milionário é um libelo ideológico que defende a amnésia social reinante em nosso mundo contemporâneo: propõe aos seus leitores que esqueça, definitivamente, de qualquer ambição por uma vida coletiva melhor e mais tranquila e se rendam à realidade dura para os fracos e promissora para os fortes que saberão fazer bom uso desse livresco. Nâo é, isto posto, um livro que promova reflexão mas sim alienação.
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Bibliografia:

JACOBY, Russell. Amnésia social: uma crítica à psicologia conformista, de Adler a Laing. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1977.
MARCUSE, Herbert. Eros e civilização: uma interpretação filosófica do pensamneto de Freud. 7. ed. Rio de Janeiro, RJ: Zahar, 1978.
MONTE, Cristopher F. Por trás da máscara: introdução às teorias da personalidade. Rio de Janeiro: LTC, 2006.
POSADA, Joachim de. O motorista e o milionário. Rio de Janeiro: Sextante, 2007.
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[1] “Escola de Frankfurt” é um termo que designa o pensamento coletivo de um grupo de pensadores marxistas, que formularam em Frankfurt, na Alemanha anterior a Hitler, e depois do exílio, uma teoria conhecida como “teoria crítica” (JACOBY, 1977).

3 comments:

Sagatibando said...

Qual a formação do Jacoby?

Andre Porto said...

Chicotada !!!

Yanco said...

Creio que a formação de Jacoby seja em história, tendo como interesse sobretudo os desdobramentos possíveis da teoria crítica (ou Escola de Franfkurt). Dentre seus trabalhos figuram sobretudo questões concernentes à utopia, à psicanálise, ao marxismo, ao papel do intelectual etc. Tem um número considerável de livros lançados no Brasil que circundam os temas supracitados.