Arte-vida, arte-vômito: deglutição do real como totalidade. (Mário Jorge)

Thursday, September 03, 2009

O declínio do saber e o asseptização da potência crítica.


Um dos impasses mais atuais indubitavelmente é: como fazer do pensamento uma força crítica que possibilite um engajamento prático consistente? Ou seja, dito de outro modo, como usar o saber como mola propulsora do fazer? 


Um dos dados mais notáveis de nosso mundo contemporâneo é a massificação do saber até então relegado aos gabinetes da academia universitária. Qualquer um pode, hoje, sair de casa e encontrar no super-mercado mais próximo uma obra de Kafka, Marx, Nietzsche, Kant, Espinosa... e tudo isso por menos de vinte reais. Autores que foram, por exemplo, queimados durante o nazismo em praças públicas. Evidentemente, sob a forma metafórica (mecanismo básico de todo totalitarismo) de queima de livros. Uma questão se coloca: se há uma acessibilidade tão grande a expoentes críticos da sociedade por que não há, ao mesmo passo, uma postura crítica prática? Algo parece ter mudado.

Parece muito comum que, por exemplo, diante de uma cena de preconceito exacerbado, como a revista de um homem negro recém-saído de uma loja provoque ojeriza ao homem contemporâneo. No entanto, diante de tal fato, é-lhe mais fácil racionalizar tal afeto negativo, dando-lhe uma roupagem intelectual, mostrando-se contra a esse tipo de atitude. De outro lado, tomar uma postura ativa que pudesse mudar a situação lhe parece fora de cogitação. Para ele, contemplar e se colocar, para outros e em outros locais, como num meio cibernético, contra esse fato já é ter feito demais. Há um nó específico aqui. 

A crítica ideológica marxista, por exemplo, tinha como mote central uma fase d’O Capital de Marx que remontava uma frase cristã (prato cheio para qualquer nietzschiano que queira criticar o marxismo como último estandarte do cristianismo descristianizado): eles não sabem, mas o fazem. Não obstante os acontecimentos históricos e a efervescência das mudanças, o certo é que se colocou a ideologia muito mais próxima do saber. O marxismo era então uma crítica ideológica porque era um saber que desmascarava outros saberes pretensamente revolucionários. A partir daí, ficou fácil rir de Proudhon, das tentativas esquerdistas de Rosa Luxemburgo, dos devaneios esquerlóides dos anarquistas e por aí vai. Ora, a crítica ideológica dizia peremptoriamente: Nietzsche é um fascista, portanto descartável. O nó é o seguinte: num mundo onde o saber é sabido, não conteria essa crítica ideológica um erro fundamental? 

O que quero dizer com o saber é sabido? Vejamos. Um intelectual estadista, daqueles que detém o monopólio do saber, intelectuais a serviço da especialização exacerbada, essas edições de obras clássicas, sobretudo as postas em mercado pela editora Martin Claret, são descartáveis. Sua tradução é ruim, de segunda mão. Não há rigor algum, dizem eles. É preferível, por exemplo, em lugar da Crítica da Razão Pura de Kant por 15 reais pela editora supracitada, comprar a de 73 reais da Editora CALOUSTE GULBENKIAN? Ora, não resta dúvidas de que essa tradução é de fato melhor, mas qual a mudança substancial entre uma e outra? Por que se conhece um autor como Kant cada vez mais e nada acontece? Tudo bem. Kant não é, de fato, revolucionário. Mas poderíamos citar o Manifesto do Partido Comunista. Por que mais e mais pessoas sabem esse livro e cada vez menos pessoas fazem esse livro? 



Claro está que é preciso situar a dimensão ideológica na ordem do fazer e não do saber. A última capa da Playboy é de uma mulher que é denominada Tati, da dupla ‘A princesa e o plebeu’. Ela é ex-psicóloga, segundo os dizeres da matéria e há um trecho realmente curioso:


PLAYBOY: Como Freud analisaria a referência à libido dos versos que você canta, quais sejam: Essa garota é poderosa, é gostosa/Ela faz geral pirar/De mini saia e perna grossa, faz a massa delirar..."? 

MC PRINCESA: A garota que inspira os versos seria realmente poderosa. Ela é o objeto de desejo intenso que motiva uma forte pulsão, uma fonte de energia que circula visando à satisfação. 

O narcisismo explica o fato de você trocar a carreira de psicóloga pela de bailarina de um ritmo popular? 

Em certa medida, sim. Afinal, como diria Jacques Lacan, o homem é escravo dessa paixão da alma por excelência, o narcisismo. E como seria viável subir ao palco e apresentar-se ao público sem uma dose significativa de admiração e fascínio por sua auto-imagem? 

A auto-imagem das suas pernas é mesmo fascinante. 
Obrigada. Eu também diria que o palco é, sem dúvida, uma satisfação narcísica deliciosa.


Ora, essa última frase dá o tom ideológico. “Veja, mulher gostosa, deixa de frescura, você é gostosa e eu quero te foder toda”. Ou seja, deixe para lá toda essa teoria, que no fim das contas para nada serve e eu pouco entendo. Há uma dose de cinismo insuportável e, ao mesmo tempo, muito comum em jogo. No fundo o consenso entre ambos é: “essa conversa de teoria não serve para nada, o que eu quero é ganhar dinheiro com você. Você sabe disso”. Ou, melhor dizendo, “O que eu quero que você admita para mim é que toda essa conversa teórica da qual eu não entendo é papo furado. Você sabe que eu quero te foder, e todos querem. Admita”. Olhando pelo lado de uma conversa entre heterossexuais que têm algum interesse em comum, não há nada demais. Trata-se daquela velha tara de comer a professora gostosa, ou a secretária com cara de intelectual, ou a CDF da sala que deve adorar uns tapas na bunda, ou a religiosa que tem um fogo no meio das pernas. O grande entrave é o senhor Lacan. Lacan foi, a um só tempo, o maior revolucionário que passou pela psicanálise, pois resgatou a dimensão filosófica e a tirou das garras egóicas da psicanálise americana, e também o maior reacionário, com doses de antiética capitalista visível. No entanto, Lacan é conhecido pela sua autoridade, seriedade, onipotência. Vê-lo nessa dimensão vulgar é realmente curioso. 

Lacan pode ser ideologizado num mundo onde não há mais segredos a esconder. Não há mais motivo para que só os psicanalistas formados e psicanalisados falem de Lacan. Aliás, Lacan será que não gostava de uma safadeza dessas? Ou, melhor, aposto que Lacan, ao ver o par de coxas dessa mulher, ficaria logo de pau duro. Apesar das risadas que isso pode provocar, algo de muito impactante acontece por debaixo do tapete: já não há mais dimensão real a ser elucidada, tudo já está posto. E, portanto, essa mensagem já posta não permite uma crítica, um pensamento. Já não há mais contradição possível. 

É nesse tipo de contexto que ocorre um declínio do saber, na medida em que sua instância crítica perde todo seu vapor. É nesse tipo de contexto que a crítica é docilizada. Ela serve a meios monetários esclarecidamente e ninguém está livre disso. Uma capa com “a marxista de quatro para você” não é inimaginável. Há um derradeiro fim: o saber não é tão soberano como se imaginava. É o fazer, no fim das contas, quem delimita o objeto da ideologia. 

“E você que escreveu esse texto inteiro deve estar doido para ver ela toda nua. Assuma!”.



Yanco.

1 comment:

Erasmo said...

Mais pura Hipocrisia...
São as nossas comunidades "conscientes" verbalmente, somente!!!
Consciência crítica??? realmente seria o máximo, mas...
"a consciência do povo daqui, é o medo dos homens de lá..."
continuemos tentando!!!
=)